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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Frases Jiddu Krishnamurti


O importante é o ser e não o vir a ser; um não é o oposto do outro, havendo o oposto ou a oposição, cessa o ser. Ao findar o esforço para vir-a-ser, surge a plenitude do ser, que não é estático; não se trata de aceitação; o vir-a-ser depende do tempo e do espaço. O esforço deve cessar; disso nasce o ser que transcende os limites da moral e da virtude social, e abala os alicerces da sociedade. Esta maneira de ser é a própria vida, não mero padrão social. Lá, onde existe vida, não existe perfeição; a perfeição é uma idéia, uma palavra; o próprio ato de viver e existir transcende toda forma de pensamento e surge do aniquilamento da palavra, do modelo, do padrão.
Jiddu Krishnamurti 
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Jiddu Krishnamurti-Oslo, Noruega – palestra no auditório da universidade 5 de setembro, 1933.


Amigos, deram-me algumas questões a que responderei após a minha palestra.

Onde quer que vão através do mundo encontram sofrimento. Parece não haver limite para o sofrimento, não haver fim para os inumeráveis problemas que preocupam o homem, parece não haver saída deste contínuo conflito entre ele e os seus semelhantes. O sofrimento parece ser sempre o destino comum do homem, e ele tenta vencer esse sofrimento através da procura de conforto. O sofrimento parece ser o destino comum do homem, e ele tenta vencer esse sofrimento através da procura de conforto; ele pensa que procurando consolo, procurando conforto, se libertará desta batalha contínua, dos seus problemas de conflito e sofrimento. E parte à descoberta do que lhe dará maior satisfação, do que lhe dará o maior consolo na sua contínua batalha de sofrimento, e vai de um consolo a outro, de uma sensação a outra, de uma satisfação a outra. Assim, através do processo do tempo, gradualmente estabelece inúmeras seguranças, inúmeros refúgios, para os quais acorre quando experimenta sofrimento intenso.

Ora há muitas espécies de segurança, muitas espécies de refúgio. Há aquelas que proporcionam satisfação emocional temporária, tais como as drogas e a bebida; há divertimentos, e tudo isso pertence ao prazer transitório. Há inúmeras crenças nas quais o homem procura abrigo do seu sofrimento; liga-se a crenças ou ideais na esperança de que lhe moldem a vida e que pela conformidade ele gradualmente vença o sofrimento. Ou refugia-se em sistemas de pensamento a que chama filosofias, mas que são meras teorias transmitidas através dos séculos, ou teorias que podem ter sido verdadeiras para aqueles que as apresentaram, mas que não são necessariamente verdadeiras para outros. Ou, de novo, o homem se volta para a religião, isto é, para um sistema de pensamento que o tenta configurar, moldar a um padrão particular, conduzir em direção a um fim; porquanto a religião, em vez de dar compreensão ao homem, apenas lhe dá consolo. Não existe tal coisa como conforto e segurança na vida. Mas na sua procura de conforto, o homem construiu através dos séculos as seguranças da religião, dos ideais, das crenças, e a ideia de Deus.

Para mim existe Deus, uma realidade viva, eterna. Mas esta realidade não pode ser descrita; cada um deve compreendê-la por si mesmo. Qualquer um que tente imaginar o que é deus, o que é a verdade, está apenas à procura de uma fuga, de um refúgio da rotina diária do conflito.

Quando o homem estabelece uma segurança – a segurança da opinião pública ou da felicidade que ele obtém das posses ou da prática da virtude, que é uma fuga – ele enfrenta cada incidente da vida, cada uma das inumeráveis experiências da vida, com o pano de fundo dessa segurança: isto é, ele nunca enfrenta a vida como ela realmente é. Chega a ela com um preconceito, com um pano de fundo já desenvolvido pelo medo; aborda a vida com a mente totalmente revestida, sobrecarregada, de ideias.

Colocando as coisas de maneira diferente, o homem geralmente só vê a vida através da tradição do tempo que ele tem presente no espírito e no coração; ao passo que para mim a vida é nova, renova-se, move-se, nunca é estática. A mente e o coração do homem estão sobrecarregados pelo desejo incontestado de conforto, que necessariamente provoca autoridade. Ele enfrenta a vida através da autoridade, e por isso é incapaz de compreender o significado pleno da experiência, que é o único que o pode libertar do seu sofrimento. Ele consola-se a si mesmo com os falsos valores da vida e torna-se meramente uma máquina, uma peça de engrenagem na estrutura social ou no sistema religioso.

Não se pode descobrir o que é o valor verdadeiro enquanto a mente estiver à procura de consolo; e uma vez que a maioria das mentes anda à procura de consolo, conforto, segurança, não podem descobrir o que é a verdade. Assim, a maioria das pessoas não é um indivíduo; são simplesmente peças de engrenagem num sistema. Para mim, um indivíduo é uma pessoa que, através do questionamento, descobre os valores corretos; e apenas se pode questionar verdadeiramente quando se está a sofrer. Sabem, quando sofrem, a vossa mente torna-se perspicaz, viva; então não são teóricos; e somente nesse estado de espírito é que podem questionar-se sobre qual é o verdadeiro valor dos padrões que a sociedade, a religião, e os políticos instauraram em nosso redor. Somente nesse estado podemos interrogar-nos, e quando nos interrogamos, quando descobrimos valores verdadeiros, então somos verdadeiros indivíduos. Mas não até lá. Isto é, não somos indivíduos enquanto estivermos inconscientes dos valores aos quais nos acostumamos através de seguranças, através de religiões, através da busca de crenças e ideais. Somos simplesmente máquinas, escravos da opinião pública, escravos dos inúmeros ideais que as religiões colocaram em nosso redor, escravos dos sistemas econômicos e políticos que aceitamos. E uma vez que toda a gente é uma peça de engrenagem nesta máquina, nunca podemos descobrir os valores verdadeiros, os valores duradouros, os únicos em que há felicidade eterna, compreensão eterna da verdade.

A primeira coisa a compreender, então, é que temos estas barreiras, estes valores que nos foram dados. Para descobrir o seu significado exato devemos questionar, e só podemos questionar quando as mentes e os nossos corações ardem com sofrimento intenso. E toda a gente sofre; o sofrimento não é a dádiva de uma minoria. Mas quando sofremos procuramos consolo, conforto imediato, e por isso já não há questionamento; já não há dúvida, mas mera aceitação. Por isso, onde há carência, não pode haver compreensão dos valores corretos que por si sós libertam o homem, que por si sós lhe conferem a capacidade de existir como um ser humano completo. E conforme eu estava a dizer, quando enfrentamos a vida parcialmente, com todo o pano de fundo tradicional de valores incontestados e mortos, naturalmente existe conflito com a vida, e este conflito cria em cada um de nós a ideia da consciência do ego. Isto é, quando as nossas mentes têm ideias preconcebidas ou crenças preconcebidas ou valores incontestados preconcebidos, há limitação, e essa limitação cria a autoconsciência que por sua vez causa sofrimento.

Pondo as coisas de outra maneira, enquanto a mente e o coração estiverem aprisionados pelos falsos valores que as religiões e as filosofias estabeleceram em nosso redor, enquanto a mente não descobrir por si os verdadeiros e vivos valores, há limitação de consciências, limitação de compreensão, que cria a ideia do “eu”. E desta ideia do “eu”, do facto de que a consciência conhece a limitação do tempo como um princípio e um fim, brota o sofrimento. Uma tal consciência, uma tal mente e coração são aprisionados no medo da morte e por isso a interrogação sobre a outra vida.

Quando compreenderem que a verdade, a vida, só pode ser percebida quando descobrirem por si próprios, sem qualquer autoridade ou imitação, o verdadeiro significado do sofrimento, o valor vivo de cada ação, então a vossa mente liberta-se da consciência do ego.

Uma vez que a maioria de nós procura inconscientemente um refúgio, um local de segurança no qual não sejamos magoados, uma vez que a maioria de nós procura nos falsos valores uma fuga do conflito contínuo, por isso eu digo, tornem-se conscientes de que todo o processo do pensamento, no presente, é uma busca contínua de refúgio, de autoridade, de padrões para a eles se submeterem, de sistemas a seguir, de métodos a imitar. Quando se aperceberem de que não existe tal coisa como o conforto, como a segurança, quer na posse de coisas quer na posse de ideias, então enfrentam a vida como ela é, não com o contexto da ânsia intensa de conforto. Então tornam-se conscientes, mas sem a luta constante para se tornarem conscientes – uma luta que perdura enquanto a vossa mente e o vosso coração procurarem uma fuga contínua da vida através de ideais, através da conformidade, através da imitação, através da autoridade. Quando compreenderem isso, desistem de procurar uma fuga; são então capazes de enfrentar a vida completamente, nuamente, totalmente, e nisso há compreensão que por si só lhes dá o êxtase da vida.

Pondo as coisas de uma outra maneira, uma vez que as nossas mentes e corações têm sido através dos séculos estropiados por falsos valores, somos incapazes de enfrentar integralmente a experiência. Se forem Cristãos enfrentam-na de uma maneira, conforme ditam todos os vossos preconceitos da Cristandade e o vosso treino religioso. Se forem Conservadores ou Comunistas, enfrentam-na de outra maneira. Se se atêm a uma crença particular, enfrentam a vida dessa maneira particular, e esperam compreender o seu pleno significado através de uma mente com ideias preconcebidas. Somente quando compreendem que a vida, esse movimento livre e eterno, não pode ser enfrentada parcialmente e com preconceitos, só então estarão livres, sem esforço. Então não estarão entravados por todas as coisas que possuem – por tradição herdada ou por conhecimento adquirido. Digo conhecimento, e não sabedoria, porque a sabedoria não entra aqui. A sabedoria é natural, espontânea; só chega quando se enfrenta a vida abertamente e sem qualquer barreira. Para enfrentar a vida abertamente o homem tem de se libertar de todo o conhecimento; não deve procurar uma explicação do sofrimento, porque quando procura tal explicação está a ser capturado pelo medo.

Portanto repito, há uma maneira de viver sem esforço, sem a tensão constante da consecução e da luta pelo sucesso, sem o medo constante de perda ou ganho; afirmo que há uma maneira harmoniosa de viver a vida que surge quando enfrentam completamente cada experiência, cada ação, quando a vossa mente não está dividida contra si própria, quando o vosso coração não está em conflito com a vossa mente, quando fazem todas as coisas integralmente, com completa unidade de mente e coração. Então nessa riqueza, nessa plenitude, há o êxtase da vida, e isso para mim é duradouro, isso para mim é eterno.

     Pergunta: O senhor diz que os seus ensinamentos são para todos, não para uma qualquer minoria seleta. Se assim é, porque é que achamos difícil compreendê-lo?

     Krishnamurti: Não se trata de me compreenderem. Porque haveriam de me compreender? A verdade não é minha, isso sim deveriam compreender. Acham as minhas palavras difíceis de compreender porque as vossas mentes estão sufocadas com ideias. O que eu digo é muito simples. Não é para a minoria seleta; é para todos os que estiverem dispostos a tentar. Eu afirmo que se se libertassem das ideias, das crenças, de todas as seguranças que as pessoas edificaram através dos séculos, então compreenderiam a vida. Podem libertar-se apenas pelo questionamento, e só podem questionar-se quando estão revoltados – não quando estão estagnados com ideias satisfatórias. Quando as vossas mentes estão sufocadas com crenças, quando estão pesadas com o conhecimento adquirido dos livros, então é impossível compreender a vida. Portanto não é uma questão de me compreenderem.

Por favor – e não estou a dizer isto com qualquer preconceito – eu encontrei uma maneira; não um método que possam praticar, um sistema que se torna numa jaula, numa prisão. Eu compreendi a verdade, Deus, ou seja lá o nome que gostam de lhe dar. Eu afirmo que existe essa realidade de vida eterna, mas não pode ser compreendida enquanto a mente e o coração estiverem sobrecarregados, estropiados pela ideia do “eu”. Enquanto essa autoconsciência, essa limitação, existir, não pode haver qualquer compreensão do todo, da totalidade da vida. Esse “eu” existe enquanto houverem falsos valores – falsos valores que herdamos ou que perseverantemente criamos na nossa busca de segurança, ou que estabelecemos como a nossa autoridade na busca de conforto. Mas os valores corretos, os valores vivos – estes só os podem descobrir quando realmente sofrem, quando estão muito descontentes. Se estiverem dispostos a tornarem-se livres da persecução de ganhos, então encontrá-los-ão. Mas a maioria de nós não quer ser livre; queremos conservar o que ganhamos, quer em virtude quer em conhecimento quer em posses; queremos conservá-los a todos. Assim sobrecarregados tentamos enfrentar a vida, e daí a absoluta impossibilidade de a compreender completamente.

Portanto a dificuldade reside não em compreender-me, mas em compreender a própria vida; e essa dificuldade existirá enquanto as vossas mentes estiverem sobrecarregadas com esta consciência a que chamamos “eu”. Não posso dar-lhes valores corretos, se eu vo-los dissesse, fariam disso um sistema e imitá-lo-iam, estabelecendo desse modo apenas uma outra série de falsos valores. Mas podem descobrir por si próprios os valores corretos, quando se tornarem verdadeiramente indivíduos, quando cessarem de ser uma máquina. E só se podem libertar desta máquina mortífera dos falsos valores quando estiverem muito revoltados.

     Pergunta: Foi reivindicado por alguns que o senhor é o Cristo que voltou novamente. Gostaria de saber de uma maneira bastante precisa o que tem a dizer sobre isto. Aceita ou rejeita a reivindicação?

     Krishnamurti: Nem aceito nem rejeito. Isso não me interessa. Que valor tem para vocês, meus amigos, perguntarem-me isto? Fazem-me esta pergunta aonde quer que eu vá. As pessoas querem saber se sou, ou se não sou. Se digo que sou, ou tomam as minhas palavras como autoridade ou riem-se delas; se digo que não sou, ficam encantados. Nem afirmo nem nego. Para mim a reivindicação é de muito pouca importância porque sinto que o que tenho a dizer é em si inerentemente correto. Não depende de títulos ou graduações, revelação ou autoridade. O que é importante é a vossa compreensão disso, a vossa inteligência e o vosso próprio desejo desperto de descobrir, o vosso próprio amor à vida – não a afirmação de que sou ou não sou o Cristo.

     Pergunta: A sua compreensão da verdade é permanente e está sempre presente, ou existem momentos obscuros em que volta a enfrentar a dependência do medo e do desespero?

     Krishnamurti: A dependência do medo existe enquanto permanecer a limitação da consciência a que chamam “eu”. Quando se tornam ricos dentro de si próprios, então já não sentirão carência. É nesta batalha contínua da carência, nesta procura de vantagem nas circunstâncias, que o medo e a escuridão existem. Penso que estou liberto disso. Como podem sabê-lo? Não podem. Eu posso estar a enganá-los. Portanto não se preocupem com isso. Mas tenho isto para dizer: pode-se viver sem esforço, de uma maneira a que não se pode chegar através do esforço; pode-se viver sem a luta incessante para a realização espiritual; pode-se viver harmoniosamente, completamente, na ação – não na teoria, mas na vida diária, no contato diário com os seres humanos. Afirmo que há uma maneira de libertar a mente de todo o sofrimento, uma maneira de viver completamente, integralmente, eternamente. Mas para o fazer, devemos estar completamente abertos à vida; não nos devemos permitir permanecer em qualquer refúgio ou reserva em que a mente possa residir, para os quais o coração se possa retirar em tempos de conflito.

     Pergunta: O senhor diz que a verdade é simples. Para nós, o que diz nos parece muito abstrato. Qual é a relação prática, segundo o senhor, entre a verdade e a vida real?

     Krishnamurti: A que é que chamam vida real? Ganhar dinheiro, explorar os outros e sermos explorados, casamento, filhos, procurar amigos, experimentar ciúmes, desavenças, medo da morte, a interrogação sobre a outra vida, guardar dinheiro para a velhice – a tudo isto chamamos vida diária. Ora para mim, a verdade e o devir eterno da vida não podem ser encontrados à parte destas coisas. No transitório reside o eterno – não em separado do transitório. Por favor, porque exploramos, seja nas coisas físicas ou nas coisas espirituais? Porque somos explorados pelas religiões que instituímos? Porque somos explorados por sacerdotes a quem recorremos para obter conforto? Porque pensamos na vida como uma série de consecuções, não como uma ação completa. Quando olhamos para a vida como um meio de aquisição, seja de coisas ou de ideias, quando olhamos para a vida como uma escola para aprender, para crescer, então estamos dependentes dessa autoconsciência, dessa limitação: criamos o explorador, e tornamo-nos no explorado. Mas se nos tornarmos absolutamente individuais, completamente autossuficientes, sós na nossa compreensão, então não distinguimos entre a vida real e a verdade, ou Deus. Sabem, porque achamos a vida difícil, porque não compreendemos todas as complicações da ação diária, porque queremos fugir dessa confusão, voltamo-nos para a ideia de um princípio objetivo; e portanto diferenciamos, distinguimos a verdade como sendo impraticável, como nada tendo a ver com a vida diária. Assim a verdade, ou deus, torna-se um escape para o qual nos voltamos em dias de conflito e aflição. Mas se, na nossa vida diária, descobríssemos porque agimos, se enfrentássemos integralmente os incidentes, as experiências, os sofrimentos da vida, então não distinguiríamos a vida prática da verdade impraticável. Porque não enfrentamos as experiências com todo o nosso ser, mentalmente e emocionalmente, porque não somos capazes de fazer isso, separamos a vida diária e a ação prática da ideia da verdade.

     Pergunta: Não acha que o apoio das religiões e dos professores religiosos é uma grande ajuda para o homem no seu esforço por se libertar de tudo o que o ata?

     Krishnamurti: Nenhum professor nos pode dar os valores corretos. Podem ler todos os livros do mundo, mas deles não podem recolher sabedoria. Podem seguir todos os sistemas religiosos do mundo e contudo permanecer escravos deles. Somente quando estão sozinhos é que podem encontrar sabedoria e ser absolutamente livres, soltos. Por solidão não quero dizer viver à parte da humanidade. Refiro-me àquela solidão que advém da compreensão, não do afastamento. Existe, por outras palavras, quando se é absolutamente individual, não individualista. Sabem, nós achamos que por praticar piano continuamente sob a orientação de um professor nos tornaremos grandes pianistas, músicos criativos; e similarmente contamos com os professores religiosos para orientação. Dizemos para nós próprios, “ Se eu praticar diariamente o que eles estabeleceram, possuirei a chama da compreensão criativa.” Eu afirmo, podem praticar para sempre, e continuarão sem ter essa chama criativa. Conheço muitas pessoas que praticam diariamente certos ideais, mas apenas se tornam cada vez mais atrofiadas na sua compreensão, porque estão meramente a imitar, estão simplesmente a conformar-se a um padrão. Libertaram-se de um professor e recorreram a um outro; simplesmente se transferiram de uma gaiola para outra. Mas se não procurarem conforto, se questionarem continuamente – e só podem questionar se estiverem revoltados – então instalarão a ausência de todos os professores e de todas as religiões; então serão supremamente humanos não pertencendo a um partido nem a uma religião nem a uma gaiola.

     Pergunta: Quer dizer que não há qualquer ajuda para os homens quando a vida se torna difícil? Que eles ficam inteiramente entregues a si próprios para se ajudarem?

     Krishnamurti: Penso, se não estou enganado – se estiver, por favor corrijam-me – penso que o interlocutor quer saber se não haverá uma fonte, uma pessoa ou uma ideia, para a qual nos possamos voltar em tempos de aflição, em tempos de pesar, em tempos de sofrimento.

Afirmo que não há qualquer fonte permanente que nos possa dar compreensão. Sabem, para mim a glória do homem é que ninguém o pode salvar exceto ele próprio. Por favor, quando olham para o homem em toda a parte do mundo, veem que ele sempre se voltou para outro em busca de ajuda. Na Índia, contamos com teorias, com professores, para nos ajudarem. Aqui também fazem o mesmo. Em todo o mundo o homem se volta para alguém que o erga da sua própria ignorância. Eu afirmo que ninguém os pode erguer da vossa própria ignorância. Vocês criaram-na através do medo, através da imitação, através da procura de segurança, e por isso estabeleceram autoridades. Criaram para vocês próprios esta ignorância que domina cada um de vocês, e ninguém os pode libertar exceto vocês mesmos através da vossa própria compreensão. Os outros poderão libertá-los momentaneamente, mas enquanto existir a causa de raiz da ignorância, apenas criam um outro conjunto de ilusões.

Para mim, a causa de raiz da ignorância é a consciência do “eu”, da qual surge o conflito e o sofrimento. Enquanto essa consciência do “eu” existir, tem que haver sofrimento do qual ninguém os pode libertar. Na vossa devoção a uma pessoa ou a uma ideia podem momentaneamente separar-se dessa consciência, mas enquanto essa consciência permanecer é como uma ferida que está sempre a supurar. A mente só se pode libertar dessa ignorância quando enfrenta a vida integralmente, quando experimenta completamente, sem preconceito, sem ideias preconcebidas, quando já não está mutilada por uma crença ou por uma ideia. É uma das ilusões que prezamos, que alguém nos possa salvar, que não podemos erguer-nos deste charco de sofrimento. Durante séculos procuramos ajuda do exterior, e ainda estamos dominados por essa crença.

     Pergunta: Qual é a causa real do presente caos no mundo, e como pode ser remediado este doloroso estado das coisas?

     Krishnamurti: Em primeiro lugar, creio, (que pode ser remediado), não contando com nenhum sistema como um remédio. Sabem, através dos séculos construímos um sistema, o sistema possessivo baseado na segurança. Fomos nós que o construímos; cada um de nós é responsável por este sistema em que a aquisição, o lucro, o poder, a autoridade e a imitação representam o papel mais importante. Fizemos leis para preservar esse sistema, leis baseadas no nosso egoísmo, e tornamo-nos escravos dessas leis. Agora queremos introduzir um novo conjunto de leis, do qual novamente nos tornaremos escravos, leis pelas quais a posse se torna um crime.

Mas se compreendêssemos a verdadeira função da individualidade, então deitaríamos mão à causa de raiz de todo este caos no mundo, este caos que existe porque não somos verdadeiramente indivíduos. Por favor compreendam o que quero dizer com indivíduo; não quero dizer individualista. Temos sido individualistas durante séculos; procurando segurança para nós próprios, conforto para nós próprios. Temos contado com as coisas físicas da vida para nos darem refúgio interior, felicidade, tranquilidade espiritual. Temos estado mortos e não o sabíamos. Porque imitamos e seguimos, cegamente exploramos as crenças. E estando espiritualmente mortos, naturalmente tentamos realizar os nossos poderes criativos no mundo da aquisição – daí o presente caos em que cada homem procura somente a sua própria vantagem. Mas se cada um, individualmente, começar a libertar-se de toda a imitação, e começar assim a compreender essa vida criativa, essa energia criativa que é livre, espiritual, então, creio, não procurará ou dará ênfase nem à posse nem à não-posse. Não acham?

Todas as nossas vidas são um processo de imitação. A opinião pública diz isto, portanto temos fazê-lo. Por favor, não estou a dizer que têm que ir contra todas as convenções, que devam impetuosamente fazer o que lhes apetece: isso seria igualmente estúpido. O que estou a dizer é isto: uma vez que somos meramente máquinas, uma vez que somos implacavelmente individualistas no mundo da aquisição, digo que se libertem de toda a imitação, que se tornem indivíduos; questionem cada padrão, tudo o que está a vossa volta, não apenas intelectualmente, não quando se sentem à vontade com a vida, mas no momento do sofrimento quando a vossa mente e o vosso coração estão perspicazes e despertos. Então, nessa compreensão que resulta da descoberta dos valores vivos, não dividirão a vida em secções – econômica, doméstica, espiritual; enfrentá-la-ão como uma unidade completa; enfrentá-la-ão como um ser humano completo.

Para pôr um fim ao caos no mundo, à agressão e exploração implacáveis, não podem contar com nenhum sistema. Somente vocês próprios o podem fazer, quando se tornarem responsáveis, e só podem ser responsáveis quando estão realmente a criar, quando já não estão a imitar. Nessa liberdade haverá a verdadeira cooperação, não o individualismo que existe agora.
Jiddu Krishnamurti
05/09/1933.

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domingo, 2 de agosto de 2015

Frases Jiddu Krishnamurti


O pensamento é tempo. Ele nasce da experiência e conhecimento, que são inseparáveis do tempo e do passado. O tempo é o inimigo psicológico do homem. Nossa ação é baseada no conhecimento e, portanto, o tempo, assim o homem é sempre um escravo do passado. O pensamento é sempre limitado e assim nós vivemos em constante conflito e luta. Não há evolução psicológica. Quando o homem se torna consciente do movimento de seus próprios pensamentos, ele verá a divisão entre o pensador e o pensamento, o observador e o observado, o experimentador e a experiência. Ele descobrirá que esta divisão é uma ilusão. Só então haverá observação pura, significando isso percepção sem qualquer sombra do passado ou do tempo. Este vislumbre atemporal traz uma mutação profunda e radical na mente.
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Alpino, Itália – 4ª palestra, 9 de julho de 1933. Jiddu Krishnamurt.


Amigos, antes de responder a algumas perguntas que me foram formuladas, farei uma pequena palestra relativa à memória e ao tempo.

Quando vocês se defrontam totalmente, completamente, sem influências ou preconceitos, com uma experiência, ela não deixa marca na memória. Cada um de vocês passa por experiências, e se as enfrentarem completamente, com todo o vosso ser, então a mente não é apanhada na onda da memória. Quando a vossa ação é incompleta, quando não enfrentam a experiência completamente, mas através das barreiras da tradição, do preconceito, ou medo, então a ação é seguida pela tortura da memória.

Enquanto houver esta marca da memória, tem que existir a divisão do tempo em passado, presente e futuro. Enquanto a mente estiver acorrentada à ideia de que a ação deve ser dividida em passado, presente e futuro, há identificação através do tempo e por isso uma continuidade da qual resulta o medo da morte, o medo da perda do amor. Para compreender a realidade intemporal, a vida intemporal, a ação deve ser completa. Mas vocês não podem tornar-se conscientes dessa realidade intemporal procurando-a; não podem adquiri-la perguntando, “Como posso obter esta consciência?”

Ora bem, o que é que causa a memória? O que é que os impede de agir completamente, harmoniosamente, ricamente em cada experiência da vida? A ação incompleta surge quando a mente e o coração estão limitados por obstáculos, por barreiras. Se a mente e o coração estiverem livres, então enfrentarão cada experiência completamente. Mas a maior parte de vocês está rodeada de barreiras – as barreiras da segurança, da autoridade, do medo, do adiamento. E visto que têm essas barreiras, naturalmente agem dentro do limite delas, e por isso são incapazes de agir completamente. Mas quando tomam consciência destas barreiras, quando tomam consciência com o vosso coração e a vossa mente no centro de uma crise, essa consciência liberta a vossa mente, sem esforço, das barreiras que têm impedido a vossa ação completa.

Assim, enquanto houver conflito, há memória. Isto é, quando a vossa ação nasce da incompletude, então a memória dessa ação condiciona o presente. Tal memória produz conflito no presente e cria a ideia de consistência. Vocês admiram o homem que é coerente, o homem que estabeleceu um princípio e age de acordo com esse princípio. Ligam a ideia de nobreza e virtude a uma pessoa que é coerente. Ora bem, a coerência resulta da memória. Isto é, porque não agiram completamente, porque não compreenderam o significado completo da experiência no presente, estabelecem artificialmente um princípio de acordo com o qual resolvem viver amanhã. Por isso a vossa mente está a ser conduzida, treinada, controlada pela falta de compreensão, à qual chamam coerência.

Agora por favor não vão para o outro extremo, para o oposto, e pensar que devem ser absolutamente incoerentes. Não estou a forçá-los a ser incoerentes; falo de se libertarem a si mesmos do fetiche da coerência que estabeleceram, de se libertarem da ideia de que devem se inserir num padrão. Estabeleceram o princípio da coerência porque não compreenderam; da vossa falta de compreensão desenvolvem a ideia de que devem ser coerentes, e medem qualquer experiência que os confronte pela ideia que estabeleceram, pela ideia ou princípio que nasce apenas através da falta de compreensão.

Portanto a coerência, o facto de viver segundo um padrão, existe enquanto a vossa vida tiver falta de riqueza, enquanto a vossa ação não for completa. Se observarem a vossa própria mente em ação, verão que estão continuamente a tentar ser coerentes. Dizem, “eu devo”, ou “eu não devo.”

Espero que tenham compreendido o que disse nas minhas conversas anteriores; de outro modo o que eu disser hoje não terá pouco significado para vocês.

Repito que esta ideia da coerência nasce quando vocês não vão ao encontro da vida integralmente, totalmente, quando vão ao encontro da vida através da memória; e quando seguem constantemente um padrão, não fazem senão incrementar a coerência dessa memória. Criaram a ideia da coerência através da vossa recusa em confrontar, livremente, abertamente, e sem preconceito, cada experiência da vida. Isto é, estão constantemente a defrontar experiências parcialmente, e daí surge o conflito.

Para vencer esse conflito dizem que têm que ter um princípio; estabelecem um princípio, um ideal, e empenham-se em condicionar a vossa ação por ele. Isto é, estão constantemente a tentar imitar; tentam controlar a vossa experiência diária, as ações do vosso quotidiano, através da ideia de coerência. Mas quando realmente compreenderem isto, quando o compreenderem com o vosso coração e a vossa mente, com o vosso ser completo, verão então a falsidade da imitação e de ser coerente. Quando tiverem consciência disto, começarão a libertar a vossa mente, sem esforço, deste hábito de coerência durante tanto tempo estabelecido, apesar de que isto não significa que que tenham que se tornar incoerentes.

Para mim, portanto, a coerência é um sinal de memória, memória esta que resulta da falta de verdadeira compreensão da experiência. E essa memória cria a ideia de tempo; cria a ideia de presente, passado e futuro, sobre os quais se baseiam as nossas ações. Consideramos o que éramos ontem, o que seremos amanhã. Tal ideia sobre o tempo existe enquanto mente e coração estiverem divididos. Enquanto a ação não nascer da plenitude, tem que haver divisão do tempo. O tempo é apenas uma ilusão, é apenas a incompletude da ação.

Uma mente que está a tentar moldar-se a um ideal, a ser coerente com um princípio, naturalmente cria conflito porque constantemente se limita na ação. Aí não existe liberdade; aí não há compreensão da experiência. Ao enfrentar a vida desse modo apenas estão a enfrentá-la parcialmente; estão a escolher, e nessa escolha perdem o pleno significado da experiência. Vivem de forma incompleta, e por isso procuram consolo na ideia da reencarnação; por isso a vossa questão, “Que acontece quando morrer?” Uma vez que não vivem plenamente na vossa vida diária, dizem. “Tenho que ter um futuro, mais tempo no qual viver completamente.”

Não procurem remédio para essa incompletude, mas tornem-se conscientes da causa que os impede de viver completamente. Descobrirão que esta causa é a imitação, a conformidade, a coerência, a busca de segurança que origina a autoridade. Tudo isto os afasta da plenitude de ação porque, sob a sua limitação, a ação torna-se apenas uma série de realizações que conduzem a um fim, e por isso o contínuo conflito e sofrimento.

Somente quando enfrentarem as experiências sem barreiras descobrirão a alegria contínua; então não serão sobrecarregados pelo peso da memória que impede a ação. Então viverão na plenitude do tempo. Isso para mim é a imortalidade.

     Pergunta: A meditação e a disciplina da mente ajudaram-me muito na vida. Agora, ao ouvir os seus ensinamentos, estou muito confuso, porque eles descartam qualquer autodisciplina. A meditação não tem igualmente qualquer significado para si? Ou tem uma nova forma de meditação para nos oferecer?

     Krishnamurti: Conforme já expliquei, onde há escolha tem que haver conflito, porque a escolha está baseada na necessidade. Onde há necessidade não há discernimento, e por isso a sua escolha apenas cria mais obstáculos. Quando sofre, você quer felicidade, conforto, quer fugir ao sofrimento; e uma vez que a necessidade impede o sofrimento, você cegamente aceita qualquer ideia, qualquer crença que pensa lhe dará alívio para o conflito. Pode pensar que raciocina ao fazer a sua escolha, mas não o faz.

Desta forma você estabeleceu ideias que apelida de nobres, dignas, admiráveis, e força a sua mente a submeter-se a essas ideias; ou então concentra-se numa figura ou imagem, e desse modo cria uma divisão na sua ação. Tenta controlar a sua ação através da meditação, através da escolha. Se não entender o que estou a dizer, por favor interrompa-me, para que o possamos discutir.

Conforme disse, quando experimentam a dor, imediatamente começam a procurar o oposto. Querem ser confortados, e na vossa busca aceitam qualquer conforto, qualquer paliativo, que lhes dê satisfação momentânea. Podem pensar que raciocinam antes de aceitar qualquer conforto, qualquer paliativo, mas na realidade aceitam-no cegamente, sem raciocinar, porque onde existe necessidade não pode haver verdadeiro discernimento.

Ora a meditação, para a maioria das pessoas, baseia-se na ideia de escolha. Na Índia, a ideia é levada ao seu extremo. Ali, o homem que pode se sentar quieto durante um longo período de tempo, repisando continuamente uma ideia, é considerado espiritual. Mas, efetivamente, que fez ele? Ele descartou todas as ideias excepto a que ele deliberadamente escolheu, e a sua escolha dá-lhe satisfação. Treinou a sua mente para se concentrar nesta ideia, nesta imagem; ele controla e por isso limita a sua mente e espera ultrapassar o conflito.

Ora para mim, esta ideia de meditação – claro que não a descrevi em detalhe – é absolutamente absurda. Não é realmente meditação; é uma hábil fuga ao conflito, uma proeza intelectual que nada tem a ver com a verdadeira vida. Treinaram a vossa mente para se adaptarem a uma certa regra de acordo com a qual esperam ir ao encontro da vida. Mas nunca encontrarão a vida enquanto se mantiverem num molde. A vida passará por vocês porque já limitaram a vossa mente pela vossa própria escolha.

Porque sentem que devem meditar? Com meditação, querem dizer concentração? Se estiverem mesmo interessados, então não lutam, não se obrigam a concentrar-se. Somente quando não estão interessados é que têm que se forçar brutal e violentamente. Mas, ao forçarem-se, destroem a mente, e então a vossa mente deixa de ser livre, bem como a vossa emoção. São ambas mutiladas. Eu afirmo que há uma alegria, uma paz na meditação sem esforço, e que isso só podem advir quando a vossa mente está liberta da escolha, quando a vossa mente já não cria divisão na ação.

Tentamos treinar a mente e o coração para seguir uma tradição, um modo de vida, mas através de tal treino não compreendemos, apenas criamos opostos. Não estou a dizer que a ação deva ser impetuosa, caótica. O que eu digo é que quando a mente é apanhada na divisão, essa divisão continuará a existir mesmo que se empenhem em suprimi-la através da coerência com um princípio, mesmo que tentem dominá-la e ultrapassá-la estabelecendo um ideal. Aquilo que chamam de vida espiritual é um contínuo esforço, um empenhamento incessante, através do qual a mente tenta manter-se fiel a uma ideia, a uma imagem; é uma vida, por isso, que não é plena, que não é completa.

Após ouvir esta conversa poderão dizer: “Disseram-me que devia viver plenamente, completamente; que não devo estar preso a um ideal, a um princípio; que não devo ser coerente – por isso devo fazer o que quiser.” Ora essa não é a ideia que desejo deixar convosco nesta última conversa. Não falo sobre a ação que é completa, que é êxtase. E digo que não podem agir plenamente forçando a vossa mente, moldando tenazmente a vossa mente, vivendo em conformidade com uma ideia, um princípio, ou uma meta.

Já alguma vez consideraram a pessoa que medita? É uma pessoa que escolhe. Escolhe aquilo que gosta, aquilo que lhe dará o que chama de auxílio. Portanto o que está realmente a procurar é qualquer coisa que lhe dê conforto, satisfação – uma espécie de paz morta, uma estagnação. E no entanto, ao homem que é capaz de meditar chamamos-lhe um grande homem, um homem espiritual.

Todo o nosso esforço está preocupado com esta sobreposição do que chamamos ideias corretas sobre o que consideramos ideias incorretas, e através desta tentativa constantemente criamos uma divisão na ação. Não libertamos a mente da ação; não compreendemos que essa escolha contínua nascida da necessidade, do vazio, da ânsia, é a causa desta divisão. Quando experimentamos um sentimento de vazio, queremos preencher esse vazio, esse vácuo; quando experimentamos a incompletude, queremos fugir dessa incompletude que nos causa sofrimento. Para este fim inventamos uma satisfação intelectual a que chamamos meditação.

Agora dirão que não lhes dei instrução construtiva ou positiva. Cuidado com o homem que lhes ofereça métodos positivos, porque aquilo que lhes está a dar são apenas os seus padrões, o seu molde. Se realmente vivem, se tentarem libertar a vossa mente e o vosso coração de toda a limitação – não através da autoanálise e introspecção, mas através da consciência em ação – então os obstáculos que agora impedem a vossa plenitude de vida entrarão em declínio. Esta consciência é a alegria da meditação – meditação que não é o esforço de uma hora, mas que é ação, que é a própria vida.

Perguntam-me: “Tem uma nova forma de meditação para nos oferecer?” Ora vocês meditam para conseguir um resultado. Meditam com a ideia de obtenção, da mesma maneira que vivem com a ideia de alcançar uma elevação espiritual, uma altitude espiritual. Podem esforçar-se ao máximo por essa elevação espiritual; mas asseguro-lhes que, embora pareça terem-na alcançado, continuarão a experimentar o sentimento de vazio. A vossa meditação não tem valor em si mesma, bem como a vossa ação não tem valor em si mesma, porque estão constantemente à procura de uma culminação, de uma recompensa. Somente quando a vossa mente e o vosso coração estiverem livres desta ideia de obtenção, desta ideia nascida do esforço, da escolha, do ganho – somente quando estiverem libertos dessa ideia, afirmo, é que há uma vida eterna que não é finalidade, mas sim um constante devir, uma constante renovação.

     Pergunta: Reconheço um conflito em mim, contudo esse conflito não cria uma crise, uma chama devoradora dentro de mim, impelindo-me a resolver esse conflito e a ter consciência da verdade. Como agiria no meu lugar?

     Krishnamurti: O interrogador diz que reconhece um conflito em si, mas que esse conflito não lhe causa qualquer crise e por isso qualquer ação. Tenho a impressão que este é o caso da maioria das pessoas. Pergunta-me o que deve fazer. Seja o que for que tente fazer, fá-lo-á intelectualmente, e por isso falsamente. É somente quando estiver disposto a enfrentar o seu conflito e a compreendê-lo completamente, que experimentará uma crise. Mas porque tal crise requer ação, a maioria de vocês não estão dispostos a enfrentá-la.

Eu não posso metê-lo á força na crise. O conflito existe em si, mas você quer fugir-lhe; quer encontrar um meio pelo qual possa evitá-lo, adiá-lo. Por isso quando diz, “ Não consigo resolver o meu conflito numa crise”, as suas palavras apenas mostram que a sua mente está a tentar evitar o conflito – e a liberdade que resulta de o enfrentar completamente. Enquanto a sua mente estiver cuidadosamente, sub-repticiamente a evitar o conflito, enquanto estiver à procura de consolo através da fuga, ninguém poderá ajudá-lo a completar a ação, ninguém poderá forçá-lo a uma crise que resolverá o seu conflito. Quando chegar a ter consciência disto – não a ver isto apenas intelectualmente, mas também a sentir a verdade disto – então o seu conflito criará a chama que o consumirá.

     Pergunta: Isto foi o que inferi de o ouvir: Uma pessoa só se torna consciente numa crise; uma crise envolve sofrimento. Portanto se uma pessoa deve estar consciente todo o tempo, deve viver continuamente num estado de crise, ou seja, num estado de sofrimento e agonia mental. Esta é uma doutrina de pessimismo, não a felicidade e o êxtase de que fala.

     Krishnamurti: Receio bem que não tenha estado a ouvir o que venho dizendo. Sabe, há duas formas de ouvir; há a mera escuta das palavras, conforme ouvem quando não estão realmente interessados, quando não estão a tentar sondar a profundidade de um problema; e há a escuta que captura o significado real do que está a ser dito, a escuta que requer uma mente penetrante e alerta. Creio que realmente não ouviu o que tenho estado a dizer.

Primeiramente, se não houver conflito, se a sua vida não tiver crises e você estiver perfeitamente feliz, então porquê incomodar-se com conflitos e crises? Se não está a sofrer, então fico satisfeito! Todo o nosso sistema de vida está planeado de forma a que possa fugir do sofrimento. Mas ao homem que enfrenta as causas do sofrimento, e que por isso está liberto desse sofrimento, vocês chamam-lhe pessimista.

Explicarei outra vez brevemente o que tenho estado a dizer, para que compreendam. Cada um de vocês está consciente de um grande vácuo, de um vazio dentro de vocês, e estando conscientes desse vazio, ou tentam preenchê-lo ou fugir dele; e ambos os atos vêm dar ao mesmo. Escolhem aquilo que preencherá esse vazio, e a esta escolha chamam progresso ou experiência. Mas a vossa escolha baseia-se na sensação, na ânsia, e por isso não envolve nem discernimento, nem inteligência, nem sabedoria. Escolhem hoje aquilo que lhes dá maior satisfação, uma satisfação maior que aquela que receberam da escolha de ontem. Portanto aquilo a que chamam escolha é apenas uma forma de fugir do vazio que têm dentro, e por isso estão somente a adiar a compreensão da causa do sofrimento.

Assim, ao movimento de dor para dor, de sensação para sensação vocês chamam-lhe evolução, crescimento. Um dia escolhem um chapéu que lhes dá satisfação; no dia seguinte, querem outro – ou um carro, uma casa, ou querem aquilo a que chamam amor. Mais tarde, ficam cansados dessas coisas, querem a ideia ou a imagem de um deus. Portanto progridem de querer um chapéu a querer um deus, e nisso pensam que fizeram um admirável avanço espiritual. No entanto todas as escolhas são apenas baseadas na sensação, e tudo o que fizeram foi mudar os vossos objetos de escolha.

Onde há escolha tem que haver conflito, porque a escolha se baseia na ânsia, no desejo de preencher o vazio dentro de vocês ou de fugir desse mesmo vazio. Em vez de tentarem compreender a causa do sofrimento, estão constantemente a tentar vencer esse sofrimento ou a tentar fugir-lhe, o que é a mesma coisa. Mas eu digo, descubram a causa do vosso sofrimento. Essa causa, descobrirão, é uma necessidade contínua, uma ânsia contínua que cega o discernimento. Se compreenderem isso – se compreenderem não apenas intelectualmente, mas com todo o vosso ser – então a vossa ação estará liberta da limitação da escolha; então estão realmente a viver, a viver naturalmente, harmoniosamente, não individualmente, em absoluto caos, como agora. Se viverem plenamente, a vossa vida não resulta em discórdia, porque a vossa ação nasce da riqueza e não da pobreza.

     Pergunta: Como posso conhecer a ação e a ilusão de que provém se não sondar a ação e a examinar? Como podemos esperar conhecer e reconhecer as nossas barreiras se não as examinarmos? Nessa altura porque não analisar a ação?

     Krishnamurti: Por favor, uma vez que o meu tempo é limitado, esta é a última questão que poderei responder.

Já tentou analisar a sua ação? Então, quando a estava a analisar, essa ação já tinha morrido. Se tentar analisar o seu movimento enquanto dança, põe um fim ao movimento; mas se o seu movimento nascer do conhecimento total, da consciência total, então sabe o que é o seu movimento na própria ação desse movimento, sabe sem tentar analisar. Fiz-me compreender?

Eu digo que se tentarem analisar a ação, nunca agirão; a vossa ação tornar-se-á lentamente restringida e finalmente resultará na morte da ação. A mesma coisa se aplica à vossa mente, ao vosso pensamento, à vossa emoção. Quando começam a analisar, põem fim ao movimento; quando tentam dissecar um sentimento intenso, o sentimento morre. Mas se estiverem conscientes de coração e mente, se estiverem totalmente conscientes da vossa ação, então saberão de que fonte brota. Quando agimos, agimos parcialmente, não estamos a agir com todo o nosso ser. Por isso, na nossa tentativa de equilibrar a mente em oposição ao coração, na nossa tentativa de dominar um pelo outro, pensamos que devemos analisar a nossa ação.

Ora o que estou a tentar explicar requer uma compreensão que não pode ser dada através de palavras. Somente no momento de verdadeira consciência é que podem se tornar conscientes desta batalha pelo domínio; então, se estiverem interessados em agir harmoniosamente, completamente, é que se tornam conscientes de que a vossa ação foi influenciada pelo vosso medo da opinião pública, pelos padrões de um sistema social, pelos conceitos da civilização. Então tornam-se conscientes dos vossos medos e preconceitos sem os analisar; e no momento em que se tornam conscientes na ação, estes medos e preconceitos desaparecem.

Quando estão conscientes com a vossa mente e o vosso coração da necessidade de ação completa, agem harmoniosamente. Então, todos os vossos medos, as vossas barreiras, o vosso desejo de poder, de consecução – todos eles se revelam, e as sombras da desarmonia desaparecem.

09/07/1933.
Jiddu Krishnamurt.
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sábado, 1 de agosto de 2015

Pink Floyd - Comfortably Numb - Legendado-Tradução HD HQ

Frases Jiddu Krishnamurti


Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente
Jiddu Krishnamurti
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Stresa, Itália – 2ª palestra 8 de julho, 1933.

     
 Pergunta: Diz-se que na realidade o senhor está a acorrentar o indivíduo, não a libertá-lo. Isto é verdade?
      Krishnamurti: Depois de ter respondido a esta questão, você próprio poderá descobrir se estou a libertar o indivíduo ou a acorrentá-lo.
Tomemos o indivíduo tal como ele é. O que queremos dizer com indivíduo? Uma pessoa que é controlada e dominada pelos seus medos, os seus desapontamentos, as suas ânsias, uma pessoa que cria um determinado conjunto de circunstâncias que o escravizam e o forçam a ajustar-se numa estrutura social. É isto o que queremos dizer com indivíduo. Através dos nossos medos, das nossas superstições, das nossas vaidades e das nossas ânsias, criamos um determinado conjunto de circunstâncias ao qual nos escravizamos. Quase perdemos a nossa individualidade, a nossa singularidade. Quando você examina a sua ação na vida quotidiana, verá que ela é apenas uma reação a um conjunto de normas, a uma série de ideias.
Por favor acompanhem o que eu digo, e não digam que eu forço o homem a libertar-se para que possa fazer o que gosta – para que possa provocar destruição e catástrofe.
Antes de mais nada quero esclarecer que somos apenas reações a um conjunto de normas e ideias que criamos através do nosso sofrimento e medo, através da nossa ignorância, do nosso desejo de posse. A esta reação chamamos ação individual, mas para mim, não é de forma alguma ação. É uma reação constante na qual não há ação positiva.
Colocarei a questão de outra forma. Presentemente, o homem é apenas o vazio da reação, nada mais. Ele não age a partir da totalidade da sua natureza, da sua plenitude, da sua sabedoria; ele age meramente a partir de uma reação. Eu afirmo que o caos, a destruição total está a acontecer no mundo porque não agimos a partir da nossa plenitude, mas a partir do nosso medo, a partir da falta de compreensão. Uma vez nos tornemos conscientes do facto de que o que chamamos individualidade é apenas uma série de reações nas quais não há totalidade de ação; uma vez compreendamos isso, que a individualidade é apenas uma série de reações nas quais há vazio constante, um vácuo, então agiremos harmoniosamente. Como vamos descobrir o valor de uma determinada norma a que nos agarramos? Não descobrirão agindo em oposição a essa norma, mas pesando e equilibrando o que vocês realmente pensam e sentem contra o que a norma exige. Descobrirão que a norma exige determinadas ações, ao passo que a vossa própria ação instintiva tende para outra direção. Então o que farão? Se fizerem o que o vosso instinto requer, a vossa ação levará ao caos, porque os nossos instintos foram pervertidos através de séculos do que chamamos educação – educação essa que é inteiramente falsa. O vosso próprio instinto exige um tipo de ação, mas a sociedade, que nós, individualmente, criamos através dos séculos, sociedade essa da qual nos tornamos escravos, exige outra espécie de ação. E quando vocês agem de acordo com o conjunto de normas exigidas pela sociedade não estão a agir através da totalidade da compreensão.
Na realidade, meditando sobre as exigências dos vossos instintos e sobre as exigências da sociedade, vocês descobrirão como poderão agir em sabedoria. Essa ação liberta o indivíduo; não o acorrenta. Mas a libertação do indivíduo requer grande seriedade, grande procura na profundidade da ação; não é o resultado da ação nascida de um impulso momentâneo.
Portanto devem reconhecer o que são agora. Apesar do bem instruídos que possam ser, vocês são apenas parcialmente um verdadeiro indivíduo; a maior parte de vocês está determinada pela reação à sociedade, que vocês criaram. Vocês são apenas uma engrenagem na tremenda máquina a que chamam sociedade, religião, política, e enquanto forem essa engrenagem, a vossa ação nasce da limitação; apenas os levará à desarmonia e ao conflito. Foi a vossa ação que resultou no nosso presente caos. Mas se tivessem agido a partir da vossa própria plenitude teriam descoberto o verdadeiro valor da sociedade e o instinto causador da ação; então a vossa ação seria harmoniosa, não um compromisso.
Primeiramente, então, devem tornar-se conscientes dos falsos valores que foram estabelecidos através dos séculos e dos quais se tornaram escravos; devem tornar-se conscientes dos valores, para descobrir se são falsos ou verdadeiros, e isto devem fazê-lo por si próprios. Ninguém o pode fazer por vocês – e aqui reside a grandeza e a glória do homem. Assim, descobrindo o correto valor dos padrões, libertam a mente dos falsos padrões transmitidos através dos tempos. Mas tal libertação não significa a ação impetuosa e instintiva que leva aos caos; significa a ação nascida da total harmonia de mente e coração.
      Pergunta: O senhor nunca viveu a vida de um homem pobre; sempre teve a segurança invisível dos seus amigos ricos. Fala da absoluta abdicação de qualquer tipo de segurança na vida, mas milhões de pessoas vivem sem essa segurança. O senhor diz que uma pessoa não se pode aperceber do que não experimentou; consequentemente, o senhor não pode saber o que a pobreza e a insegurança física realmente são.
      Krishnamurti: Esta é uma pergunta que frequentemente me fazem; já a respondi muitas vezes antes, mas fá-lo-ei de novo.
Primeiramente, quando falo de segurança, quero dizer a segurança que a mente estabelece para seu próprio conforto. O homem deve ter segurança física, algum conforto físico, para existir. Portanto, não confundam as duas. Cada um de vocês procura não só uma segurança física mas também uma segurança mental, e nessa procura estão a estabelecer autoridades. Quando percebem a falsidade da segurança que procuram, então essa segurança deixa de ter qualquer valor; então apercebem-se que apesar de ter que haver um mínimo de segurança física, mesmo essa segurança não pode ter senão pouco valor. Então já não concentram mais toda a vossa mente e o coração na aquisição constante de segurança física.
Colocarei a questão de forma diferente, e espero que fique clara; mas qualquer coisa que se diga pode facilmente ser mal interpretada. Tem que se passar através da ilusão das palavras para descobrir o pensamento que o outro deseja transmitir. Espero que tentem fazer isso durante esta conversa.
Eu digo que a vossa persecução da virtude, que é apenas o oposto daquilo a que chamam vício, é simplesmente uma busca de segurança. Porque têm um conjunto de padrões na vossa mente, procuram a virtude pela satisfação que dela conseguem; porque para vocês virtude é apenas um meio de adquirir segurança. Não tentam adquirir virtude pelo seu valor intrínseco, mas pelo que lhes dá em troca. As vossas ações, no entanto, estão apenas relacionadas com a persecução da verdade; em si próprias isentas de valor. A vossa mente está constantemente à procura da virtude para obter, através dela, outra coisa, e assim a vossa ação é sempre um objetivo intermédio para uma ulterior aquisição.
Talvez a maior parte dos que aqui estão estejam à procura de uma segurança espiritual mais do que de uma segurança física. Procuram segurança espiritual ou porque já possuem segurança física – uma abastada conta bancária, uma posição segura, uma alta posição na sociedade – ou porque não podem alcançar segurança física e por isso voltam-se para a segurança espiritual como um substituto. Mas para mim não existe essa coisa de segurança, um abrigo em que a nossa mente e emoção possa sentir conforto. Quando se aperceberem disso, quando a vossa mente estiver livre da ideia de conforto, então não se apegarão à segurança como fazem agora.
Perguntam-me como posso entender a pobreza se não a experimentei. A resposta é simples. Uma vez que não procuro segurança nem física nem mental, não tem qualquer importância para mim se são os meus amigos que me dão comida, ou se trabalho para a ter. É de muito pouca importância para mim se viajo ou não viajo. Se me pedem, venho; se não me pedem, não faz qualquer diferença para mim. Porque eu sou rico em mim mesmo (e não digo isto com presunção), porque não procuro segurança, tenho poucas necessidades físicas. Mas se eu procurasse o conforto físico, eu daria ênfase às necessidades físicas, daria ênfase à pobreza.
Olhemos para isto de uma maneira diferente. A maioria das nossas desavenças no mundo dizem respeito à posse ou não posse; dizem respeito à aquisição disto e à proteção daquilo. Então porque colocamos tal ênfase na posse? Fazemo-lo porque a posse nos dá poder, prazer, satisfação; dá-nos uma certa garantia de individualidade e proporciona-nos margem de manobra para a nossa ação, para a nossa ambição. Colocamos ênfase na posse devido ao que dela obtemos.
Mas se nos tornarmos ricos em nós mesmos, então a vida fluirá através de nós harmoniosamente; então a posse ou a pobreza já não serão de grande importância para nós. Porque colocamos ênfase na posse, perdemos a riqueza da vida; ao passo que, se fossemos completos em nós mesmos, descobriríamos o valor intrínseco de todas as coisas e viveríamos em harmonia de mente e coração.
      Pergunta: Foi dito que é a manifestação de Cristo nos nossos tempos. Que tem a dizer sobre isto? Se é verdade, porque não fala de amor e compaixão?
      Krishnamurti: Meus amigos, por que fazem tal pergunta? Porque perguntam se sou a manifestação de Cristo? Perguntam porque querem que lhes assegure que sou ou não o Cristo, para que possam julgar o que digo de acordo com o padrão que têm. Há duas razões pelas quais fazem essa pergunta: pensam que sabem o que é o Cristo, e por isso dizem, “Agirei de acordo”; ou, se eu disser que sou o Cristo, então pensam que o que digo deve ser verdade. Não estou a fugir à questão, mas não lhes vou dizer quem sou. Isso é de muito pouca importância, e, além disso, como podem saber o que ou quem sou mesmo que eu lhes diga? Tal especulação carece de importância. Portanto não nos preocupemos sobre quem sou, mas olhemos para a razão da vossa pergunta.
Querem saber quem eu sou porque estão indecisos sobre vocês próprios. Não estou a dizer se sou ou não o Cristo. Não lhes estou a dar uma resposta categórica, porque para mim a pergunta não é importante. O que é importante é se o que eu estou a dizer é verdade, e isto não depende do que eu sou. É algo que só poderão descobrir ao libertarem-se de preconceitos e padrões. Não podem obter verdadeira liberdade de preconceitos olhando para uma autoridade, trabalhando para um fim, no entanto é isso que estão a fazer; sub-repticiamente, perseverantemente, estão a procurar uma autoridade, e nessa busca não estão senão a transformar-se em máquinas imitativas.
Perguntam porque não falo de amor, de compaixão. Fala a flor do seu perfume? Ela simplesmente é. Já falei do amor; mas para mim o importante não é discutir o que é o amor ou a compaixão, mas libertar a mente de todas as limitações a que chamamos egotismo, autoconsciência; então saberão sem perguntar, sem discussão. Questionam-me agora porque pensam que depois podem agir em conformidade com o que descobrem de mim, que terão uma autoridade para a vossa ação.
Portanto digo novamente, a verdadeira questão não é porque não falo sobre o amor e a compaixão, mas antes, o que impede a vida natural e harmoniosa do homem, a plenitude de ação que é amor. Falei sobre as muitas barreiras que impedem a nossa vida natural, e expliquei que tal vida não significa ação instintiva e caótica, mas sim vida rica e plena. A vida rica e natural tem sido impedida através de séculos de conformidade, através de séculos do que chamamos educação, que não tem sido mais que um processo de produção de tantas máquinas humanas. Mas quando compreendem a causa destes impedimentos e barreiras que criaram para vocês mesmos através do medo na vossa procura de segurança, então tornam-se livres deles; então há amor. Mas esta é uma compreensão que não pode ser discutida. Não discutimos sobre a luz do sol. Está aí; sentimos o seu calor e apercebemo-nos da sua beleza penetrante. Somente quando o sol se esconde é que discutimos sobre a sua luz. Da mesma forma acontece com o amor e a compaixão.
      Pergunta: Nunca nos deu uma concepção clara do mistério da morte e da vida após a morte, contudo fala constantemente de imortalidade. Sem dúvida que acredita na vida após a morte?
      Krishnamurti: Querem saber categoricamente se existe ou não aniquilação após a morte: essa á uma abordagem errada ao problema. Espero que acompanhem o que digo, visto que de outra maneira a minha resposta não será clara para vocês e pensarão que não respondi à pergunta. Por favor interrompam-me se não compreenderem.
Que querem dizer quando falam da morte? A vossa dor pela morte de alguém, e o medo da vossa própria morte. A dor é despertada pela morte de alguém. Quando o vosso amigo morre, vocês tornam-se conscientes da solidão porque confiavam nele, porque vocês e ele se complementaram, porque se compreenderam, apoiaram e encorajaram. Portanto quando o vosso amigo morre, vocês têm consciência do vazio; querem aquela pessoa de volta para preencher a parte da vossa vida que antes preenchia.
Querem o vosso amigo novamente, mas uma vez que não o podem ter, voltam-se para várias ideias intelectuais, para vários conceitos emocionais, que pensam lhes darão satisfação. Vocês contam com essas ideias para consolo, para conforto, em vez de descobrir a causa do vosso sofrimento e de se libertarem eternamente da ideia da morte. Voltam-se para uma série de consolações e satisfações que gradualmente diminuem o vosso intenso sofrimento; contudo, quando a morte volta, voltam a experimentar o mesmo sofrimento outra vez.
A morte vem e causa-lhes dor intensa. Aquele que muito amaram morreu, e a sua ausência acentua a vossa solidão. Mas em vez de procurarem a causa dessa solidão, tentam escapar-lhe através de satisfações mentais e emocionais. Qual é a causa dessa solidão? Confiança em outro, a incompletude da vossa própria vida, a tentativa contínua de evitar a vida. Vocês não querem descobrir o valor real dos factos; em vez disso, atribuem um valor àquilo que não é senão um conceito intelectual. Assim, a perda de um amigo causa-lhes sofrimento porque essa perda os torna totalmente conscientes da vossa solidão. Depois há o medo da vossa própria morte. Quero saber se viverei depois da minha morte, se reencarnarei, se existe uma continuação para mim de alguma forma. Preocupam-me estas esperanças e estes medos porque não conheci nenhum momento de riqueza durante a minha vida; não conheci um único dia sem conflito, um único dia em que me sentisse completo, como uma flor. Por isso tenho este desejo intenso de realização, um desejo que envolve a ideia de tempo.
Que querem dizer quando falamos sobre o “eu”? Vocês só tomam consciência do ”eu” quando são apanhados no conflito da escolha, no conflito da dualidade. Neste conflito tomam consciência de si próprios e identificam-se com um ou com outro, e desta contínua identificação resulta a ideia do “eu”. Por favor considerem isto com o vosso coração e a vossa mente, visto que não é uma ideia filosófica que possa ser simplesmente aceite ou rejeitada.
Eu digo que através do conflito da escolha, a mente estabeleceu uma memória, muitas camadas de memória; identificou-se com estas camadas, e chama-se a si própria o “eu”, o ego. E daí surge a questão, “Que acontecerá comigo quando eu morrer? Terei uma oportunidade de viver outra vez? Existirá uma plenitude futura?” Para mim, estas questões nascem da ânsia e da confusão. O que é importante é libertar a mente deste conflito da escolha, já que somente quando assim se tiverem libertado poderá existir imortalidade.
Para a maioria das pessoas a ideia da imortalidade é a continuação do “eu”, sem fim, através do tempo. Mas eu digo que tal conceito é falso. “Então,” respondem vocês, “deve haver aniquilação total.” Eu digo que isto também não é verdade. A vossa crença de que a aniquilação total deve seguir-se à cessação da consciência limitada a que chamamos “eu”, é falsa. Vocês não podem entender a imortalidade dessa forma, visto que a vossa mente está aprisionada em opostos. A imortalidade está liberta de todos os opostos; é ação harmoniosa na qual a mente está absolutamente liberta do conflito do “eu”.
Eu digo que há imortalidade, imortalidade essa que transcende todas as nossas concepções, teorias e crenças. Somente quando têm a compreensão total dos opostos, ficarão livres deles. Enquanto a mente criar conflito através da escolha, deve existir consciência como memória que é o “eu”, e é o “eu” que teme a morte e anseia pela sua continuação. Por isso não existe a capacidade para compreender a plenitude de ação no presente, que é a imortalidade.
Um certo brâmane, de acordo com uma antiga lenda Indiana, decidiu distribuir algumas das suas posses no desempenho de um sacrifício religioso. Ora este brâmane tinha um filho pequeno que observava o seu pai e o assediava com imensas perguntas até que o pai ficou aborrecido. Finalmente o filho perguntou, “A quem me vais dar?” E o pai respondeu-lhe com irritação, “Dar-te-ei à Morte.” Ora considerava-se antigamente que aquilo que fosse dito teria que ser feito; portanto o brâmane teve que enviar o seu filho à Morte, de acordo com as palavras que irrefletidamente tinha proferido. À medida que o rapaz se dirigia para a casa da Morte, ouvia o que muitos professores tinham a dizer sobre a morte e sobre a vida após a morte. Quando chegou à casa da Morte, notou que a Morte estava ausente; portanto esperou três dias sem comer, de acordo com um antigo costume que proibia comer na ausência do anfitrião. Quando finalmente a Morte chegou, pediu humildemente desculpa por ter feito o brâmane esperar, e em sinal de pesar concedeu ao rapaz três desejos que ele pudesse querer.
No seu primeiro desejo o rapaz pediu que fosse devolvido ao pai; no Segundo, pediu que fosse instruído em certos ritos cerimoniais. Mas o terceiro desejo do rapaz não foi um pedido mas uma questão: “Diz-me, Morte”, perguntou ele, “a verdade sobre a aniquilação. Dos professores que ouvi no meu caminho para cá, alguns dizem que há aniquilação; outros dizem que existe continuidade. Diz-me, ó Morte, qual é a verdade.” “Não me faças essa pergunta”, replicou a Morte. Mas o rapaz insistiu. Assim, em resposta àquela pergunta a Morte ensinou ao rapaz o significado da imortalidade. A morte não lhe disse se há ou não continuidade, se há vida depois da morte, ou se há aniquilação; a Morte ensinou-lhe sim o significado da imortalidade.
Vocês querem saber se existe ou não continuidade. Alguns cientistas estão agora a provar que existe. As religiões afirmam-no, muitas pessoas acreditam-no, e vocês podem acreditar se assim o escolherem. Mas para mim, isso é de pouca importância. Sempre existirá conflito entre a vida e a morte. Somente quando conhecerem a imortalidade é que não haverá nem princípio nem fim; somente então é que a ação implica plenitude, e somente então há infinito. Por isso digo novamente, a ideia da reencarnação é de pouca importância. No “eu” nada há que dure; o “eu” é composto de uma série de memórias que envolvem conflito. Não podem tornar o “eu” imortal. Toda a vossa base de pensamento é uma série de realizações e por isso um contínuo esforço, uma contínua limitação da consciência. Contudo esperam dessa forma compreender a imortalidade, sentir o êxtase do infinito. Eu afirmo que a imortalidade é realidade. Vocês não podem discuti-lo; poderão sabê-lo na vossa ação, ação nascida da plenitude, da riqueza da sabedoria; mas essa plenitude, essa riqueza, não a podem alcançar ouvindo um guia espiritual ou lendo um livro de instrução. A sabedoria vem somente quando há plenitude de ação, quando há consciência completa do vosso todo em ação; então verão que todos os professores e todos os livros que pretendem guiá-los para a sabedoria nada lhes podem ensinar. Poderão conhecer o que é imortal, eterno, somente quando a vossa mente estiver livre de qualquer sentido de individualidade que é criado pela consciência limitada, que é o “eu”.
      Pergunta: Quais são as causas dos desentendimentos que nos levam a colocar-lhe questões em vez de agir e viver?
      Krishnamurti: É bom questionar, mas como recebem as respostas? Fazem uma pergunta e recebem uma resposta. Mas o que fazem com essa resposta? Perguntaram-me o que havia após a morte, e eu dei-lhes a minha resposta. Ora o que vão fazer com essa resposta? Vão armazená-la em qualquer canto do vosso cérebro e deixá-la aí permanecer? Vocês têm celeiros intelectuais nos quais reúnem ideias que não compreendem, mas que esperam lhes venham a servir em situações de dificuldade ou dor. Mas se compreenderem, se se entregarem de alma e coração ao que digo, então agirão; nessa altura a ação nascerá da vossa própria plenitude.
Há duas maneiras de colocar uma questão: podem colocar uma questão quando estão na intensidade do sofrimento, ou podem colocar uma questão intelectualmente, quando estão entediados e à vossa vontade. Num dia querem saber intelectualmente; noutro dia perguntam porque sofrem e querem saber a razão do sofrimento. Só podem realmente saber quando questionarem na intensidade do sofrimento, quando não desejarem escapar do sofrimento, quando se encontrarem com ele cara a cara; somente então saberão o valor da minha resposta, o seu valor humano para o homem.
      Pergunta: O que é que quer dizer exatamente por ação sem objetivo? Se é a resposta imediata de todo o nosso ser em que objetivo e ação são um só, como pode a ação do nosso quotidiano ser sem objetivo?
      Krishnamurti: Você mesmo deu a resposta à pergunta, mas deu-a sem perceber. O que fará na sua vida quotidiana sem um objetivo? Na sua vida diária você pode ter um plano. Mas quando experimenta sofrimento intenso, quando é apanhado numa grande crise que requer ação imediata, então age sem objetivo; então não há motivo na sua ação, porque você está a tentar descobrir a causa do sofrimento com todo o seu ser. Mas a maioria de vocês não está predisposta a agir integralmente. Estão constantemente a tentar fugir do sofrimento, tentam evitar o sofrimento; não querem confrontá-lo.
Explicarei o que quero dizer de outra forma. Se você for um cristão, olha para a vida de um ponto de vista particular; se for Hindu, olha para ela de um ângulo diferente. Por outras palavras, o cenário da vossa mente dá o colorido à vossa visão da vida, e tudo o que vocês percebem é visto somente através daquela visão colorida. Assim nunca vêm a vida como ela realmente é; olham para ela através de um ecrã de preconceito, e por isso a vossa ação tem de ser sempre incompleta, tem sempre que ter um motivo. Mas se a vossa mente estiver liberta de todos os preconceitos, então encontram a vida como ela é; então encontram a vida integralmente, sem a busca de recompensa ou a tentativa de fugir ao castigo.
      Pergunta: Qual é a relação entre técnica e vida, e porque é que a maior parte de nós confunde uma com a outra?
      Krishnamurti: A vida, a verdade, é para ser vivida; mas a expressão requer uma técnica. Para pintar, vocês precisam de aprender uma técnica; mas um grande artista, se sentiu a chama do impulso criativo, não seria escravo da técnica. Se vocês forem ricos interiormente, a vossa vida é simples. Mas vocês querem chegar a essa completa riqueza através de meios externos tais como a simplicidade no vestir, a simplicidade na habitação, através do ascetismo e da autodisciplina. Por outras palavras, vocês querem obter a simplicidade que resulta da riqueza interior através de técnicas. Não existe técnica que os guie à simplicidade; não existe caminho que os conduza à terra da verdade. Quando compreenderem isso com todo o vosso ser, então a técnica tomará o seu devido lugar na vossa vida.
08/07/1933.
Jiddu Krishnamurti
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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Frases Jiddu Krishnamurti


"Os ensinamentos são importantes por si mesmos e intérpretes ou comentadores apenas os distorcem, sendo aconselhável ir diretamente à fonte, os próprios ensinamentos, e não valer-se de nenhuma autoridade”
 Jiddu Krishnamurti
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Textos de Jiddu Krishnamurti


 Amigos, eu gostaria que fizessem uma descoberta viva, não uma descoberta induzida pela descrição de outros. Se alguém, por acaso, lhes tivesse falado sobre este cenário, teriam vindo com as vossas mentes preparadas para tal descrição, e talvez ficassem depois desapontados pela realidade. Ninguém pode descrever a realidade. Devem experimentá-la, vê-la, sentir toda a sua atmosfera. Quando virem a sua beleza e graciosidade, experimentarão uma renovação, uma aceleração na alegria.
A maioria das pessoas que pensam que estão à procura da verdade prepararam já suas mentes para a receber estudando descrições do que procuram. Quando se examinam religiões e filosofias, descobrir-se-á que todas elas tentaram descrever a realidade; tentaram descrever a verdade para vossa orientação.
Não vou tentar descrever o que é para mim a verdade, já que isso seria um intento impossível. Não se pode descrever ou transmitir a outro a amplitude de uma experiência. Cada um deve vivê-la por si próprio.
Como a maioria das pessoas, vocês leram, ouviram e imitaram; tentaram descobrir o que os outros disseram sobre a verdade e sobre Deus, sobre a vida e a imortalidade. Possuem, portanto, uma imagem na mente, e querem agora comparar essa imagem com o que eu vou dizer. Ou seja, a vossa mente procura apenas descrições; não tentam descobrir de novo, tentam apenas comparar. Mas como eu não vou tentar descrever a verdade, porque ela não pode ser descrita, haverá naturalmente confusão na vossa mente.
Quando retêm uma imagem que vão tentar copiar, ou se atêm a um ideal que vão tentar seguir, jamais poderão enfrentar uma experiência completamente; nunca serão francos, nunca serão verdadeiros no que respeita a vocês mesmos e às vossas ações; estão sempre a se autoproteger com um ideal. Se realmente sondarem a vossa mente e o vosso coração, descobrirão que vêm aqui para obter algo novo; uma ideia nova, uma sensação nova, uma nova explicação da vida, de forma a poderem moldar a vossa própria vida de acordo com ela. Por isso estão realmente à procura de uma explicação satisfatória. Não vieram com uma atitude de frescura, para que com a vossa própria percepção, a vossa própria intensidade, pudessem descobrir a alegria da ação natural e espontânea. Muitos de vocês procuram apenas a explicação descritiva da verdade, pensando que se conseguirem descobrir o que é a verdade, poderão então moldar as vossas vidas de acordo com essa luz eterna.
Se for esse o motivo da vossa procura, então não se trata de uma procura da verdade. É mais propriamente uma procura de consolo, de conforto; não é mais que uma tentativa de escapar aos inumeráveis conflitos e batalhas que têm que enfrentar todos os dias.
Do sofrimento nasceu o impulso de buscar a verdade; no sofrimento reside a causa da inquirição insistente, da procura da verdade. No entanto quando sofrem – pois todos sofrem – procuram remédio e conforto imediatos. Quando sentem uma dor física momentânea, obtêm um paliativo na farmácia mais próxima para atenuar o vosso sofrimento. Da mesma forma, quando experimentam uma angústia mental ou emocional momentânea, procuram consolo, e imaginam que tentar encontrar alívio para a dor é a procura da verdade. Dessa forma estão continuamente à procura de uma compensação para as vossas dores, uma compensação pelo esforço que são assim obrigados a fazer. Evitam a causa principal do sofrimento e vivem portanto uma vida ilusória.
Portanto, essas pessoas que estão sempre a proclamar que estão na busca da verdade estão, na verdade, a deixá-la escapar. Chegaram à conclusão que as suas vidas são insuficientes, incompletas, com falta de amor, e pensam que tentando procurar a verdade encontrarão satisfação e conforto. Se tiverem a franqueza de dizer a vocês próprios que vão apenas à procura de consolo e compensação pelas dificuldades da vida, serão capazes de procurar resolver o problema de forma inteligente.
Mas enquanto fingirem que estão à procura de algo mais que de simples compensação, não poderão ver a questão com clareza. A primeira coisa a descobrir, portanto, é se estão realmente à procura, fundamentalmente à procura da verdade.
Um homem que procura a verdade não é um discípulo da verdade. Suponham que me dizem: “Não tive amor na minha vida; foi uma vida pobre, uma vida de constante sofrimento; por isso, para obter conforto, procuro a verdade.” Devo então chamar a atenção para o facto de que a vossa procura de conforto é uma total ilusão. Na vida não existe isso de conforto e segurança. A primeira coisa a perceber é que devem ser absolutamente francos.
Mas vocês próprios não estão certos do que realmente querem: querem conforto, consolação, compensação, e no entanto, ao mesmo tempo, querem algo que é infinitamente maior que a compensação e o conforto. A vossa mente está tão confusa que num momento vocês confiam numa autoridade que lhes oferece compensação e conforto e, no momento seguinte, voltam-se para outra que lhes nega conforto. A vossa vida portanto torna-se numa refinada e hipócrita existência, uma vida de confusão. Tentem descobrir o que realmente pensam; não finjam pensar o que acham que devem pensar; então, se estiverem conscientes, totalmente vivos no que estão a fazer, saberão por vocês próprios, sem autoanálise, o que realmente desejam. Se forem totalmente responsáveis nos vossos atos, saberão então sem autoanálise o que realmente procuram. Este processo de descoberta não precisa de grande força de vontade, de grande vigor, mas apenas de interesse em descobrir o que pensam, descobrir se realmente são honestos ou se vivem numa ilusão.
Ao falar com grupos de ouvintes em todo o mundo, descubro que cada vez mais pessoas parecem não compreender o que eu digo porque vêm com ideias fixas; ouvem com a sua atitude tendenciosa, sem tentar descobrir o que tenho para dizer, mas apenas esperando descobrir o que secretamente desejam. É inútil dizer, “Aqui está um novo ideal pelo qual devo moldar-me”. Descubram de preferência o que realmente sentem e pensam.
Como é que podem descobrir aquilo que realmente sentem e pensam? Do meu ponto de vista, só o poderão fazer tendo consciência de toda a vossa vida. Descobrirão então até que ponto são escravos dos vossos ideais, e ao descobri-lo, verão que criaram ideais apenas para vossa consolação.
Onde existe dualidade, onde existem opostos, deve haver a consciência de incompletude. A mente está presa entre opostos, tais como castigo e recompensa, bom e mau, passado e futuro, ganho e perda. O pensamento é apanhado nesta dualidade, e por isso há incompletude na ação. Esta incompletude gera sofrimento, o conflito da escolha, esforço e autoridade, e a fuga do não essencial para o essencial.
Quando se sentem incompletos, sentem-se vazios, e desse sentimento de vazio surge o sofrimento; devido a essa incompletude vocês criam padrões, ideias, para sustentá-los no vosso vazio, e estabelecem esses padrões e ideais como sendo a vossa autoridade externa. Qual é a causa interior da autoridade externa que criam para si mesmos? Primeiro, sentem-se incompletos e sofrem por causa dessa incompletude. Enquanto não compreenderem a causa da autoridade, não passarão de uma máquina imitativa, e onde existe imitação não pode existir a preciosa realização da vida. Para compreender a causa da autoridade deverão acompanhar o processo mental e emocional que a cria. Em primeiro lugar sentem-se vazios e para se livrarem desse sentimento fazem um esforço; ao fazer esse esforço estão somente a criar opostos; criam uma dualidade que apenas aumenta a incompletude e o vazio. Vocês são responsáveis por autoridades externas tais como religião, política, moralidade, por autoridades tais como padrões econômicos e sociais. Devido ao vosso vazio, a vossa incompletude, criaram estes padrões externos dos quais tentam agora se libertar. Evolucionando, desenvolvendo, crescendo longe deles, querem criar uma lei interna para vocês próprios. À medida que vão compreendendo os padrões externos, querem libertar-se deles e desenvolver o vosso próprio padrão interno. Este padrão interno, a que vocês chamam de “realidade espiritual”, vocês identificam-no como uma lei cósmica, o que significa que não criaram senão outra divisão, outra dualidade.
Portanto, primeiro criam uma lei externa, e depois procuram se libertar dela desenvolvendo uma lei interna que identificam com o universo, com o todo. É isso o que está a acontecer. Continuam conscientes do vosso egotismo que agora identificam como uma grande ilusão, chamando-lhe cósmica. Portanto, quando dizem, “Eu obedeço à minha lei interna”, não estão senão a utilizar uma expressão para encobrir o vosso desejo de se libertarem. Para mim, o homem que esteja ligado seja a uma lei externa seja a uma interna está enclausurado numa prisão; está dominado por uma ilusão. Por isso, um homem assim não pode compreender a ação espontânea, natural e saudável.
Ora bem, porque é que criam leis internas para vocês próprios? Não será porque a luta da vida diária é tão grande, tão inarmônica, que querem se libertar dela e a criação de uma lei interna torna-se o vosso conforto? E tornam-se escravos dessa autoridade interna, desse padrão interno, porque rejeitaram somente a imagem exterior, e criaram no seu lugar uma imagem interior à qual se escravizaram.
Por este método não alcançarão o verdadeiro discernimento, e o discernimento é completamente diferente de escolha. A escolha tem que existir onde houver dualidade. Quando a mente está incompleta e está consciente dessa incompletude, tenta libertar-se dessa incompletude e em consequência cria o oposto a essa incompletude. Esse oposto pode ser um padrão tanto externo como interno, e uma vez estabelecido esse padrão, julga cada ação, cada experiência por esse padrão, e vive assim num estado contínuo de escolha. A escolha nasce somente da resistência. Se não houver discernimento, não há esforço.
Portanto para mim toda esta ideia de fazer um esforço em direção à verdade, em direção à realidade, esta ideia de efetuar um esforço continuado, é absolutamente falsa. Enquanto estiverem incompletos experimentarão sofrimento, e por isso estarão comprometidos com a escolha, o esforço, a luta incessante por aquilo a que chamam de “conhecimento espiritual”. Por isso eu digo que quando a mente fica aprisionada na autoridade não pode ter compreensão verdadeira, pensamento verdadeiro. E uma vez que as mentes da maioria das pessoas estão aprisionadas na autoridade – que não é mais que uma evasão à compreensão, ao discernimento – não poderão experimentar completamente a experiência da vida. Por esse motivo vivem uma vida dupla, uma vida de fingimento, de hipocrisia, uma vida na qual não existe nenhum momento de plenitude.
 Jiddu Krishnamurti
01/07/1933.
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quinta-feira, 30 de julho de 2015

Frases Osho


Diga sim à vida; abandone todos os nãos possíveis.
 Osho.
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Não Queira Ser Especial


Se uma pessoa se aceitar tal como é e usar as suas capacidades para desenvolver a criatividade - e todas as pessoas nascem com certas capacidades, determinados talentos e alguma criatividade será imensamente feliz apesar de não ser ninguém. Um indivíduo não tem de ser forçosamente feliz só porque se converteu no homem mais rico ou no homem mais poderoso do mundo. Estas são as noções infantis do homem primitivo, um fardo que temos carregado até aos dias de hoje.
Eu gostava de lhe pedir: abandone as palavras «aceitação total». Substitua-as por palavras simples e sinta-se alegre interiormente. No momento em que se alegrar em si mesmo, toda a existência se alegra em si. Terá, então, alcançado a sintonia com a dança harmoniosa que acontece ao seu redor.
Só o homem se desfez em pedaços, e o motivo por que se desfez tem que ver com o facto de querer ser especial. Se quiser ser especial, terá de aceitar algum tipo de loucura.

Osho, in 'Acreditar no Impossível'
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